A Globalização da Inovação

Por Roberto C. Mayer, membro do Conselho de Ética da Assespro-SP; diretor de Comunicação da Assespro Nacional; fundador e CEO da MBI e vice-presidente da ALETI

Pouco tem se falado sobre as transformações que a nuvem promove, além das questões diretamente relacionadas com a infraestrutura. Abordo aqui seu impacto na geografia da inovação.

Há vários anos que a computação em nuvem está sob os holofotes do marketing da indústria de TI. Entretanto, pouco tem se falado sobre as transformações que ela promove e os impactos que ela gera, além das questões diretamente relacionadas com a infraestrutura de tecnologia. Em particular, gostaria de chamar a atenção do impacto da computação em nuvem sobre a geografia da inovação.

As grandes companhias globais do setor de TI incluem em seu discurso, de forma mais ou menos explícita, a tese que diz que “inovações globais são para empresas globais, e empresas locais se dedicam a inovações locais”. De fato, se olharmos para a Tecnologia da Informação da era pré-nuvem, essa tese predominava: as grandes empresas se dedicavam a gerar inovações para uso em escala global, enquanto a criação de inovações que visassem atender mercados menores ficavam a cargo das pequenas e médias empresas locais.

Esta ‘regra’ é confirmada quando olhamos para a tecnologia dos grandes players, em diversas categorias de produtos: sistemas operacionais, gerenciadores de bancos de dados e até ERPs são desenvolvidos para uso em escala global. Já a adaptação destes produtos às necessidades locais fica por conta dos chamados ecossistemas (também conhecidos como redes de canais ou parceiros).

A lógica que regia esse acordo tácito é que grandes empresas precisam de grandes mercados, enquanto as pequenas e médias se satisfazem com mercados menores. Ao longo do tempo, as grandes empresas aplicaram essa lógica para avançar sobre segmentos de mercado que cresceram. Antivírus, browsers e a própria computação em nuvem não foram ofertas de grandes empresas de TI quando introduzidos como inovação: seus criadores, porém, não dispunham de meios de promover suas inovações em escala global.

A ‘grande nuvem’ que temos hoje, chamada também de hipernuvem, muda esta ‘regra do jogo’: quando uma pequena empresa, independentemente de sua localização, desenvolve uma tecnologia inovadora, ela pode atingir um grande número de usuários em qualquer parte do planeta. Por exemplo, o rastreamento de cortes de carne bovina do frigorífico até a prateleira do supermercado (incluindo o monitoramento da temperatura de armazenamento), o controle de vagas de estacionamento de automóveis e o monitoramento remoto de pacientes são aplicações que, no modelo tradicional, não interessavam para as empresas globais.

Se no ambiente da computação em nuvem as pequenas e médias empresas possuem maior potencial de vender suas inovações globalmente, as grandes empresas também passam a ter a sua disposição novos segmentos de mercado a custos menores.

Portanto, o resultado é mais um acirramento da competição: a computação em nuvem não apenas quebra barreiras geográficas, mas tende a quebrar regras de segmentação de mercado pelo seu porte.

É necessário então que os produtores das inovações fiquem atentos ao potencial global dos seus produtos (disponibilizando eles para o mundo todo e não apenas para um mercado local), ao mesmo tempo em que veremos grandes empresas se movimentando para entrar rapidamente em segmentos de mercado que até agora ignoraram.

O recrudescimento da globalização da inovação precisa ser levado em conta por todos que são responsáveis pelo planejamento da criação e adoção de produtos inovadores de TI, além dos formuladores de políticas públicas.

*Conteúdo publicado pelo portal ITForum365

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